“Seja qual for a língua que falam meus livros, eu lhes falo na minha.”
Michel de Montaigne
É difícil saber quais das leituras que fizemos na vida contribuíram para nossa formação. Às vezes, falamos mais do que faltou, do que não lemos. Se é verdade que nossas leituras, até aquelas consideradas mais fúteis, ficam mimetizadas em nosso inconsciente, fica ainda mais complicado entender os caminhos de nossas melhores ideias e a relação com o que lemos. É claro que os clássicos, nas suas capacidades de nos tomar, fazer sonhar, inquietar ou nos angustiar, estão sempre presentes, às vezes silenciosos, outras vezes protestando, despertando-nos contra o sono da palavra e da realidade.
No dia do livro um escritor francês colocou entre os direitos do leitor a não-leitura. Para nós professores um dos maiores sacrilégios é aconselhar alguém, em especial o aluno, a não ler. As dificuldades situam-se em mobilizar o aluno para a leitura. O aluno geralmente tem pouco interesse pela leitura, mesmo em um mundo tão letrado como o nosso. A leitura não está entre as atividades mais estimulantes para o jovem ou a criança de nosso tempo, qualquer professor pode confirmar isso. Aliás, nunca presenciei professor algum aconselhando alunos a não ler, a não ser por uma questão moral ou política criticar um autor, revista, jornal ou livro, mesmo o que não tenha lido.
Por isso mesmo não cabe nos afazeres cotidianos do professor pensar a não-leitura. Mas será que o excesso linguístico, o exagero das palavras, porque não dizer a mais-valia da palavra, seu peso estrutural (ideologias), sua repetição incessante, não é, paradoxalmente, uma das razões do desinteresse pela leitura? Um dos sonhos iluministas, em especial do filosofo I. Kant, é que alcançássemos uma autonomia capaz de nos liberar para exercermos livremente nosso juízo. Dessa forma, autorizados por si próprio a decidir sobre o que é mais proveitoso e fértil lermos e não lermos, livres de restrições acadêmicas e políticas.
Michel de Certeau define, em uma bela imagem, o leitor como “um caçador em terra alheia”. A liberdade de andar, poder escolher, buscar e apreender o que lhe dá vida na leitura situa o leitor como alguém supostamente livre nos tempos modernos. Mas o bom caçador precisa se orientar bem, estar munido de meios que lhe favoreça na caçada, conhecer os hábitos e até as pegadas e os excrementos de sua caça. O leitor não é diferente, se não está orientado, se perde não imensidão dos livros e das letras, expõe-se aos riscos de sua própria sobrevivência como leitor.
Orientação e liberdade não são expressões contraditórias ou paradoxais. Orientar não é impor, é indicar o melhor caminho, e ser livre não supõe saber tudo, pelo contrário, supõe também dar conta de suas limitações. Muitos bons caçadores são bons contadores de histórias. Mais do que a obrigação da leitura a qualquer custo, talvez tenhamos que contar boas histórias dos livros que lemos, quem sabe inventando um pouco, deixando a certeza que na leitura e nos livros cabe um pouco de cada um de nós. É a essencial troca entre leitores que nos mobiliza e nos inspira a ler e a criar.
Postagem na coluna on-line: agosto/2009. Esta publicação também será veiculada na edição 94 do JC |