Chegando aos 40 anos, Josemília começava a reter gorduras indesejáveis apesar das caminhadas diárias (que a bem da verdade requeriam um pouco mais de critério, reconhecia, pois sempre parava para conversar com alguém. Lipoaspiração nem pensar, o marido não aprovava - notícias demais sobre erros médicos e rejeições neste campo. Não sabia o que fazer, os “pneuzinhos” já constituíam preocupação tal, que mais logo se tornaria paranóia, pensava ela.
Foi quando decidiu buscar pelo apoio de uma nutricionista. Já tinha ouvido dizer que dieta nutritiva personalizada constituía importante coadjuvante na perda do peso indesejável. Assustava-se com a ideia que obesidade, tida como epidemia em Países do primeiro mundo e que o diabete, decorrência quase natural do sobrepeso, tinham correlações apontadas com a engenharia genética dos alimentos processados, correlações estas associadas também aos herbicidas industrializados. O que comer então? Raciocinava ela, preocupada.
Vítimas de um comportamento social que parece respeitar apenas o jovem, associando o velho ao ultrapassado, Josemília estava disposta a investir na “juventude” e de quebra levar o marido a colaborar e participar. Não foi difícil convencê-lo, consciente ele da imagem profissional a manter - pois o cliente iludido imaginava que o mais velho não buscava por atualizações, o que atribuía tão somente ao jovem -, e isto fatalmente acabaria por distanciá-lo da clientela. E lá partiram os dois, separadamente, para uma consulta com a nutricionista. Numa rapidez espantosa ia se familiarizando com a terminologia pertinente aos exames físicos, IMC (índice de massa corporal), bioimpedância (análise da composição corporal e da massa magra por membro e tronco), o picômetro (para analisar a diferença entre gordura corporal e músculos, tido como o mais simples e aprimorado indicador de saúde) e também os exames laboratoriais para avaliar taxas de colesterol, triglicérides e até mesmo a esteatose hepática (terminologia técnica para avaliar porcentagem de gordura retida no fígado).
Uma maratona, julgava ela (e ele também). Assim pela primeira vez passavam a ter consciência do próprio corpo como algo mais que simples continente para o conteúdo realmente importante, os pensamentos, a alma, os sentimentos - esquecidos que a deterioração corporal poderia resultar repercussões danosas para se concatenar o material com o sutil. Davam- se conta que um corpo doente ou sobrecarregado ou fragilizado dificilmente permitiria o fluir das ideias e do pensamento livres.
Exames avaliados, a nutricionista recorria ao endocrinologista sempre que os resultados da anamnese assim o requeriam, a dieta prescrita, o pior ainda estava por vir. Deveriam inicialmente contratar um personal trainer ***** para orientar e ajudar a memorizar a química fina dos exercícios, aliando flexibilidade com força e resistência. Josemília pensava se não teria sido mais barato e menos complicado ter nascido nos Estados nordestinos brasileiros, onde ninguém parece ter problema de sobrepeso.
Josemília e o marido eram agora cúmplices na contagem de calorias e liam tudo que lhes caia nas mãos, sobre nutrição e peso. Leram o artigo recém-lançado pela Fapesp (http://www.agencia.fapesp.br/materia/11979/algas-contra-obesidade.htm#) sobre a importância das fibras na redução de peso, e aprenderam que as algas constituem a mais moderna aquisição da Ciência no combate a obesidade. Detentores do conhecimento não mais poderiam se escorar nas desculpas para adiar o regime.
Postagem na coluna on-line: abril/2010. Esta publicação também será veiculada na edição 100 do JC |