Portugal “Salazar — Uma biografia Política” (Dom Quixote, de 832 páginas), de Filipe Ribeiro de Meneses, provoca polêmica em Portugal. Meneses, que escreveu o livro em inglês, diz que António de Oliveira Salazar não pertence à “família” fascista e conta que ele não tinha simpatia por Franco e Hitler [...].
A entrevista polêmica do biógrafo Filipe Meneses
A entrevista de Filipe Ribeiro de Meneses foi concedida ao excelente jornal “Público” (www.publico.pt), de Portugal, na edição de 25 de agosto. É uma entrevista inteligente e mostra as qualidades de um pesquisador (chamado de “investigador” em Portugal) criterioso, que, no lugar de repetir chavões sobre António de Oliveira Salazar, descobriu fatos novos (ou, antes de serem novos, não revelados) e conectou-os a uma análise heterodoxa. O Jornal Opção transcreve a entrevista e as opiniões dos leitores portugueses.
Esperamos 40 anos por este Salazar
MARIA JOSÉ OLIVEIRA
É a biografia mais óbvia quando atentamos na história portuguesa contemporânea. Mas até 2009 ninguém ousou biografar António de Oliveira Salazar, morto em 1970. Foi preciso esperar por Filipe Ribeiro de Meneses, um jovem historiador nascido um ano antes da morte do ditador, para finalmente ler “Salazar”
Há cerca de um ano, Filipe Ribeiro de Meneses estava em Washington para o lançamento mundial de “Salazar - A Political Biography” (Enigma Books), obra académica inédita na historiografia internacional. A notícia (dada pelo PÚBLICO, em exclusivo) suscitou um entusiasmado interesse por parte de várias casas editoriais portuguesas - há mais de quatro décadas que o país esperava pela biografia da figura mais importante do século XX português, António de Oliveira Salazar. E repentinamente, para surpresa de todos, a obra estava prestes a entrar no mercado internacional: escrita em inglês por um historiador português radicado em Dublin, “senior lecturer” na National University of Ireland. A corrida à edição portuguesa foi ganha pela Dom Quixote, que, a partir de amanhã, vai colocar “Salazar” nas livrarias nacionais.
A obra, resultado de sete anos de investigação, foi internacionalmente bem acolhida. Mas Filipe Ribeiro de Meneses não esconde alguma ansiedade pela recepção portuguesa. “O livro vai ser passado a pente fino”, diz. “Sei por experiência própria que há um enorme interesse em Salazar e no Estado Novo, um desejo de entender o passado recente”, acrescenta. Um interesse, aliás, que ficou bem expresso no concurso “Grandes Portugueses”, transmitido pela RTP em 2007, e na consequente multiplicação de projectos (teatrais, literários) em torno da temática Salazar.
Ribeiro de Meneses, 40 anos, sabe que este livro que procura entender e descodificar o trajecto e as decisões políticas de Salazar ao longo de quatro décadas arrasta consigo controvérsia (efeito incontornável na abordagem da história recente). Até porque persistem ainda na historiografia portuguesa contemporânea muitas “ideias feitas” sobre Salazar e o Estado Novo — consequência de uma excessiva politização da análise histórica que, acredita, “tende a desaparecer”.
Em quase 700 páginas, o autor condensa 40 anos da vida de um homem que o contacto com a população repugnava e que evitou sempre avançar com um processo de doutrinação ideológica. Não só porque privilegiava a “realpolitik”, como também porque só assim impedia a cristalização do Estado Novo. Mas "Salazar" é uma obra em aberto. Ribeiro de Meneses prevê regressar ao tema, “daqui a muitos anos!”. O historiador diz querer esperar por uma idade mais avançada para tentar compreender algumas decisões do ditador que mais anos governou na Europa do século XX. Entretanto, para além das aulas, prossegue as suas investigações sobre os períodos da I República e Estado Novo, algumas delas já decantadas em livro: “União Sagrada e Sidonismo: Portugal em Guerra 1916-1918” (Cosmos, 2000), “Franco and the Spanish Civil War” (Routledge, 2001) e “Afonso Costa" (Texto, 2010), biografia que será também publicada pela editora britânica Haus numa série (“Makers of the Modern World”) dedicada aos líderes das delegações à Conferência de Paz de Paris (1919), realizada no final da Primeira Guerra Mundial.
A menos de um mês do lançamento em Lisboa, e na véspera de umas curtas férias na ilha de Achill, Filipe Ribeiro de Meneses respondeu às perguntas do Ípsilon por correio electrónico. Optou por centrar a biografia exclusivamente no trabalho político de Salazar. A abordagem da história pessoal não lhe interessava ou a informação sobre o assunto é escassa? O meu problema principal foi a dimensão. É impossível escrever sobre Salazar sem descrever a máquina do Estado Novo, e não se pode descrever o regime sem escrever sobre o país. Tendo o livro sido escrito originalmente para um público de língua inglesa, era duplamente necessário informar o leitor do meio em que Salazar se movia. Por isso escrevi muito e depois o pragmatismo da editora norte-americana [Enigma Books] forçou-me a cortar e a tornar a cortar. Parte do que ficou de fora tinha a ver com a história pessoal - mas em boa verdade não tinha muito mais de útil a dizer, porque a informação sobre a sua vida particular é de facto escassa e por vezes contraditória. Em entrevista ao P2 (edição de 29/10/2009) disse que um dos motivos para não existir uma biografia tão completa de uma das figuras mais óbvias da história recente prende-se com as ideias feitas sobre Salazar e o Estado Novo. A historiografia nacional é ainda politizada?
De certa forma sim, o que é natural. Mas estamos felizmente muito longe do que sucede, por exemplo, em Espanha, onde existem duas historiografias sobre o século XX espanhol que pura e simplesmente se ignoram mutuamente. E há um fenómeno notável em Portugal: os historiadores são ouvidos sobre assuntos correntes, fazem parte do "comentariado", participam na vida política como deputados ou mesmo ministros - mas cada vez menos se usa a historiografia académica como arma política. Com algumas excepções notáveis, a manipulação do passado para fins políticos presentes tende a desaparecer.
Escreve que incluir Salazar na “família fascista” é esticar o conceito de fascismo e que a repressão estado-novista não foi uma força “todo-poderoas”. E equipara ainda a violência na década de 30 à de anos anteriores. A escala da repressão nessa década, com a abertura do Tarrafal e a criação da PVDE, não cumpre um dos requisitos da definição de Estado fascista?
Não me parece que a pergunta resuma precisamente o que escrevi. Afirmo que “o silenciamento de ideias dissidentes assumiu um papel vital no regime que Salazar estabelecéu”; a comparação com a violência exercida em décadas anteriores abrange apenas uma parte da violência estatal do regime salazarista; não ignoro nem o Tarrafal nem a PVDE/PIDE; e - julgo - torno claro que Salazar deu rédeas demasiado largas aos directores da sua polícia secreta: era a estes homens que Salazar pedia explicações sobre os excessos da PIDE que lhe chegavam aos ouvidos, ou às mãos. Quanto à inclusão de Salazar na “família fascista”, digo que “à primeira vista” não faz sentido nenhum. É importante realçar, no entanto, que não só o Estado Novo não se resumia a Salazar, como também Portugal estava aberto a influências estrangeiras, apesar da censura e da "política do espírito" do Secretariado de Propaganda Nacional (SPN). E uma parte importante do Estado Novo sentia uma atracção muito forte pelo fascismo, numa altura em que este se estava a fortalecer por toda a Europa. Havia fascistas em Portugal, dentro do regime, e Salazar teve de pactuar com alguns deles; tinham inimigos comuns e, de certa forma, armas idênticas para os combater. Mas o que me parece claro é que Salazar quis sempre - e conseguiu sempre - travar e controlar estes elementos mais radicais. Conseguiu-o porque tinha uma autodisciplina notável e porque, nos anos 30, pouco se podia fazer sem o patrocínio financeiro do Estado: mas era precisamente Salazar quem controlava os cordões da bolsa. Todas as organizações que tinham uma componente fascista - os Vanguardistas, a Mocidade, a Legião - acabaram por se curvar perante o homem que continuava a ser o “ditador das Financãs”.
No fundo, esta questão tem na base a interpretação feita do fascismo. Quem o vê como uma simples resposta ao comunismo provavelmente verá em Salazar um fascista. Mas para quem considera o fascismo um fenómeno histórico digno de estudo, complexo nas suas causas e nas suas acções, Salazar surge como algo bem diferente. E não é a repressão estatal, impossível de negar, que chega para colmatar a brecha.
Salazar teve sempre o cuidado de manipular a população de forma a obter ganhos políticos. Poder-se-á falar num culto da personalidade calculado?
Sim. Tudo era estudado ao milímetro. O culto da personalidade desenvolvido por Mussolini, entre outros ditadores da época, servia para mobilizar as massas, o que Salazar não queria fazer - assim como não queria gastar demasiado tempo a contactar directamente com a população. Mas precisava de explicar a certos sectores sociais o seu direito a governar, estabelecendo uma narrativa que tornasse clara a razão de ser do Estado Novo, e isto fez-se com base na sobrevalorização dos seus dotes e virtudes pessoais. Tal tarefa coube em primeiro lugar ao SPN, que foi alvo de críticas dentro do regime pelo seu custo financeiro. Mas Salazar defendeu sempre o trabalho de António Ferro, sobretudo a sua componente internacional.
“Salazar tinha pouca confiança em Franco”
Durante a Guerra civil de Espanha, em Abril de 38, Salazar reconheceu o Governo de Franco. Contudo, e apesar de autorizar a propaganda pró-falangista, recusou qualificar os Viriatos, voluntários recrutados em Lisboa, como uma força política. Porquê?
Quem queria transformar os Viriatos numa força política era precisamente a ala mais radical do Estado Novo, que precisava duma milícia nova — a Legião já tinha sido domada pelo regime -, dotada duma mística própria, forjada no combate contra o inimigo “vermelho”. Porquê? Porque queria transformar o Estado Novo em algo mais parecido com o regime franquista, ele próprio decalcado do italiano e do alemão. Os Viriatos seriam os “arditi” portugueses. Salazar não podia permitir tal coisa e sobreviver politicamente. O posicionamento de Salazar na Segunda Guerra Mundial continua debaixo de “mal-entendidos” e de leituras “deliberadamente distorcidas”, defende. Diz que a tese de que Salazar era pró-nazi está mal sustentada nas relações conturbadas entre Portugal e os Aliados e na compra de armamento aos países do Eixo. Por que é que esta relação de causalidade é falaciosa?
Precisei de dois capítulos para responder a essa pergunta. Para Salazar a guerra era uma catástrofe terrível, que punha em causa a “missão histórica” da Europa. Até ao Verão de 40 pensou que a melhor solução seria um entendimento entre os beligerantes, uma “paz branCa”. Foi depois surpreendido pela facilidade com que a França foi derrotada. Durante algum tempo pensou - e quem, no continente europeu, não pensou assim? - que a Alemanha tinha ganho a guerra, e que só a teimosia impedia Churchill de reconhecer a derrota. Não quer isto dizer que estivesse contente com o desfecho: longe disso. Foi uma época extremamente desgastante para Salazar, que tentou por todos os meios entender os contornos da “Nova Ordem” e o papel que esta reservava a Portugal - para não falar no esforço que fez para influenciar a política espanhola. Lentamente - mais lentamente do que Armindo Monteiro [então embaixador de Portugal em Londres] - entendeu que a Alemanha não poderia ganhar a guerra, pois esta tinha-se transformado numa contenda entre a Europa, parca em recursos estratégicos, e o resto do mundo. E a partir desse momento tentou convencer os Aliados ocidentais, cuja vitória desejava, a limitar os estragos, isto é, a travar o avanço da União Soviética, que ele receava ainda mais do que a Alemanha Nazi.
Passemos ao armamento. Salazar preferiu, em regra, comprar armamento à Grã-Bretanha. Mesmo quando este era mais caro, ou de qualidade inferior, era para Londres que se virava. A modernização da Armada foi feita com base em navios britânicos, e o Governo comprou caças Gloster Gladiator quando estes já estavam totalmente ultrapassados pelos Spitfire desejados pela Aeronáutica Militar, mas reservados para a Royal Air Force. Porém, quando, após décadas de cortes orçamentais na Defesa, a Grã-Bretanha acordou para o perigo alemão, não estava em condições de vender a Portugal o que este queria. À frente de Portugal na fila estavam, para não falar nas próprias Forças Armadas britânicas, parceiros estratégicos que Londres queria manter na sua órbita. Portugal comprou armamento em Berlim porque precisava de o comprar (em parte porque o mundo se estava a tornar cada vez mais perigoso, mas também porque só munido de armas modernas o Exército aceitaria regressar às casernas) e porque Londres não lho vendia.
Quanto às relações com os beligerantes, parece-me claro que Salazar podia falar sobre as políticas inglesa e americana de uma forma aberta, e por isso crítica, porque calculava que as suas palavras, necessárias à política interna, não provocariam um corte de relações. Com a Alemanha, a situação era diferente; todo o cuidado era pouco. A Grã-Bretanha podia desiludir Salazar, feri-lo com as suas acções, precisamente porque ele queria ter boas relações com Londres; da Alemanha nazi ele não esperava nada de bom. Com um país Salazar queria colaborar; com o outro apenas sobreviver.
Para além de Salazar acreditar que uma eventual vitória da Alemanha poderia ser fatal para um país periférico e rural como Portugal, estiveram entre os motivos para a neutralidade os catastróficos resultados da participação na Primeira Guerra Mundial?
Sempre me pareceu que sim. Salazar sabia que seria apoiado pela maioria da população se mantivesse o país fora de conflitos europeus. E sabia também que a participação na guerra estava muito além das possibilidades do Estado Novo: não só na sua vertente militar, mas também na organização da "frente doméstica", que tinha sido alvo de alguns escritos seus nos tempos de Coimbra.
Uma investigação recente, de Manuel Ros Agudo, veio confirmar que Franco ponderou invadir Portugal. Até que ponto Salazar poderia desconfiar do plano franquista?
Salazar tinha pouca confiança em Franco, e por vezes troçava dele. Eram personalidades opostas, com passados distintos. Mas Salazar sabia que para a Espanha a participação na guerra seria um sacrifício incomportável - um verdadeiro holocausto. Não se ignorava que a fome era uma realidade terrível em Espanha, que o país estava de rastos depois da guerra civil, que as prisões estavam a abarrotar e que a tensão entre a Falange e o Exército era uma constante. A Inglaterra fornecia a comida e o combustível que separavam a Espanha do abismo. Podia a Alemanha fazê-lo? Não. Por isso, a política de Salazar junto do Governo de Madrid era lembrar, com todo o tacto possível, esta realidade, assegurando o diálogo entre Franco e Churchill. Por outras palavras: era preciso falar ao cérebro de Franco, e não ao coração. Não foi fácil, mas funcionou.
Não me espanta que tenham existido planos para a invasão espanhola de Portugal: surpreendente seria o contrário! Mas a sua descoberta apenas confirma o que já se sabia - que a tentação de participar no conflito era enorme. Parece-me que a importância destes planos é maior no contexto das guerras de memória histórica em Espanha do que no contexto português. Servem para demonstrar que Franco pensou a sério em entrar na guerra ao lado de Hitler e Mussolini, e se nisso pensou foi porque desejava a vitória do Eixo, contrariando assim a visão dos apologistas do ditador, que o dizem equidistante dos Aliados e do Eixo.
Escreve que Salazar fez uma análise "incompleta" da situação europeia entre 39 e 45 e que as "motivações raciais e assassinas" do Terceiro Reich lhe terão escapado. Como se explica esta eventual falta de conhecimento?
Há aqui muito espaço para investigações futuras. O problema é a falta de material sobre a Solução Final nos arquivos portugueses, a começar pelo Arquivo Oliveira Salazar. Foi-me impossível estabelecer o que Salazar soube sobre o extermínio dos judeus na Europa, e quando o soube. Mas tenho a impressão de que, até muito tarde, considerou Hitler como um estadista tradicional, movido por razões de Estado agressivas, repugnantes até, mas inteligíveis (a conquista de território e de recursos), tendo subestimado a componente racial e absurda da empresa nazi. Curioso também é o silêncio de Salazar sobre o Holocausto. Talvez tenha sido motivado pelo receio de municionar o inimigo ideológico durante a Guerra Fria; outra explicação é o receio de ofender a Alemanha, cujo ressurgimento, para Salazar, era uma certeza histórica.
Durante a guerra, Salazar concentrou em si a maioria dos poderes de decisão. Este isolamento teve efeitos no regime?
Sem dúvida. Tornou o Estado Novo mais dependente do fundador e minou ainda mais a autoridade de ministros e altas autoridades. Quem se insurgiu contra esta tendência viu a sua carreira política destruída. Carmona continuava a exercer uma tutela sobre Salazar, mas o que sabia Carmona que não tivesse passado primeiro pelas mãos de Salazar? Quase nada. A guerra teve outro efeito importante: conduziu à derrota da direita radical, que passou de porta-estandarte de uma ideologia triunfante a pária internacional. O Estado Novo é mais homogéneo a partir de 45; a luta de ideias no seu seio é menor, restando apenas a luta de interesses pessoais e económicos.
Concorda com os historiadores que defendem que após a queda dos fascismos na Europa assistiu-se, em Portugal, a um processo de "desfascização" e inflexão nas instituições do regime?
Concordo. Depois da guerra, Salazar pôde governar com maior facilidade. O Estado Novo tornou-se mais claramente o reflexo do seu fundador, e as resistências internas (no regime) diminuíram. A ameaça política da direita radical esfumou-se numa altura em que a Guerra Fria ajudou a justificar o lado repressivo. Era preciso apenas resistir a Marcelo Caetano e seus apoiantes, evitando a "promoção" à Presidência da República, e preservar os equilíbrios políticos e económicos de que dependia a estabilidade do Estado Novo. Porém, oponho-me frontalmente à ideia de que o Estado Novo da década de 30 é o genuíno, sendo o que se lhe seguiu uma cópia desbotada; parece-me até que só nos anos 50 é que Salazar começou a governar como realmente queria.
É consensual a teoria de que o pós-guerra representou uma oportunidade dourada para a industrialização. Contudo, Salazar, dividido entre o ímpeto de Ferreira Dias e a contestação da oligarquia rural, optou por ceder a este último poderoso grupo. Porquê? Porque o poder político de Salazar assentava em parte sobre a sua capacidade de satisfazer grupos económicos com interesses por vezes contraditórios. Quando um destes manifestava o seu desagrado perante uma política anunciada, era tempo de rever essa política. E Salazar era muito mais forte em questões financeiras do que em matéria económica - daí, em parte, a fraqueza do corporativismo português. Por fim, entendia que mudanças económicas súbitas trariam consequências sociais que levariam a mudanças políticas: tendo em conta a agitação no pós-guerra, com o MUD e, mais tarde, a campanha de Norton de Matos, esta era uma questão de primeira importância. Industrialização significava um operariado maior. Já lhe chegava, em termos políticos e de segurança interna, um Barreiro! Por isso preferiu esperar.
“Salazar herdou um colonialismo irrealista”
Os primeiros anos de 50 coincidem com a publicação de “Férias com Salazar”, um retrato suave escrito por Christine Garnier. Houve necessidade de recuperar e fortalecer o poder de Salazar no pós-guerra?
“Férias com Salazar” foi um golpe de génio. Salazar conseguiu reafirmar, perante uma nova geração, as “verdades” do regime, as razões que o tinham levado a governar e a manter-se ainda, depois de tantos anos, no seu posto. Uma escritora francesa, que nada sabe sobre Portugal, chega, é conquistada intelectualmente (e não só) por Salazar e, em palavras aparentemente suas, que parecem ter sido escolhidas livremente (mas não foram), resume a vida e a obra de Salazar no tom mais elogioso possível, retratando-o e humanizando-o como nunca sucedera antes. Nada de cartazes, de manifestações, de secretariados de propaganda, de espalhafato; apenas um volume, de leitura fácil e rápida. Perfeito. Salazar precisava de renovar pontualmente a sua legitimidade e não dispunha de meios. Era necessária uma voz nova e aparentemente imparcial para tornar a apresentar os pontos essenciais do mito de Salazar, sobretudo o da renúncia aos prazeres mundanos. Essa voz foi a de Garnier.
A candidatura independente de Humberto Delgado, porém, e o delírio nacional em torno das eleições representaram um forte revés para o regime. O que é que pode ter falhado? Muitas coisas falharam. Por um lado, o mundo estava em plena transformação, a começar pelo resto da Europa ocidental, cuja recuperação económica após a guerra foi fulminante. O Portugal descrito por Garnier - a última Arcádia - era uma fantasia. A pobreza, por vezes extrema, era uma realidade à qual Salazar era insensível. A modernização em curso tinha de ser controlada pelo Estado, de forma a minimizar as consequências sociais e políticas; tinha de haver progresso, mas não se queria pagar o preço da incerteza por ele causada. E tudo tinha de ser feito de acordo com a ortodoxia financeira ditada por Salazar. Quem viajasse, como Delgado fazia constantemente, quem pudesse comparar friamente Portugal ao resto do mundo ocidental, entenderia que a distância que os separava estava a aumentar por causa da lentidão do crescimento. Entenderia também que os custos humanos desta lentidão eram elevadíssimos. E porquê? Seria mesmo verdade que só Salazar era capaz de manter a paz social? Que Portugal não podia pagar a educação e alimentação de todas as suas crianças? Treze anos depois do fim da Segunda Guerra Mundial, e mais de 30 anos depois do 28 de Maio, era preciso ainda suportar a PIDE, a censura e uma máquina administrativa insensível às necessidades da população e aberta a todos os tipos de abusos? Eram os portugueses assim tão ingovernáveis?
Delgado conseguiu levar estas questões ao eleitorado. Era o seu nacionalismo que o forçava a agir antes de o país se perder. Apresentou-se como um homem que tinha vencido o medo de dizer o que muitos pensavam. E conseguiu unificar as várias oposições, simplificando a escolha que se punha aos eleitores: ou ele ou Salazar. Não sabemos, pura e simplesmente, quem de facto eles escolheram.
A partir de 1961, com a Administração Kennedy, Portugal sofreu maior pressão externa relativamente às políticas coloniais. Mas Salazar manteve-se irredutível, isolando cada vez mais o país.
Na década de 30, foi atacado por ligar pouco à sorte dos territórios. E depois da guerra as críticas continuaram. Isto não quer dizer que Salazar não considerasse as colónias parte integrante de Portugal - desse mesmo Portugal cujo desenvolvimento ele estava disposto a retardar para manter a disciplina fiscal e a “Ordem”. Não estava disposto a ser pressionado em relação ao Ultramar. A decisão de não começar a preparar a descolonização antes do início da guerra em Angola foi, sem dúvida, o maior erro de Salazar. Condenou o regime a continuar “in situ”, imutável, até cair. Era impossível fazer uma transição negociada dada a guerra em África - mas também era impossível ganhar a guerra. Portugal era forte em África, como nunca o tinha sido; podia contar com o apoio da África do Sul (e, mais tarde, da Rodésia de Ian Smith); as economias de Angola e Moçambique iam de vento em popa. Este sentimento de força induziu-o em erro, levando-o a pensar que Portugal poderia resistir até ao resto do Ocidente mudar de opinião.
As administrações norte-americanas não deixaram de tentar um eventual acordo entre Portugal e os movimentos de libertação, embora logo em 64 Washington tenha percebido que a autodeterminação das colónias seria impossível sem a mudança do regime. Seria necessária a alteração do regime ou bastaria um novo chefe do Governo?
Portugal não se batia nas colónias apenas por vontade de Salazar; fazia-o porque se tinha tornado um caso único na Europa, um país em que o colonialismo continuava a ser uma política aceitável e desejável entre grande parte da elite governativa e militar, da Igreja Católica, e do resto da população. Não podemos esquecer que a emigração para o Ultramar acelerou depois do começo da guerra colonial. Não é nada óbvio que, se Salazar mudasse de opinião em relação à política em África, pudesse alterar o rumo de forma tão drástica e manter-se no poder. A tanto não chegaria a sua força.
O Portugal de Salazar herdou da República e da Monarquia Constitucional um colonialismo totalmente irrealista. As colónias pareciam garantir a prosperidade e mesmo o futuro, mas eram, na realidade, um fardo. Estávamos em África desde o século XV, mas as campanhas de "pacificação" arrastavam-se ainda no século XX. Angola e Moçambique eram potencialmente riquíssimas, mas Portugal não tinha capital financeiro e humano. Éramos todos portugueses, mas havia portugueses de primeira e de segunda. A empresa colonialista dos séculos XIX e XX continha contradições que, com o passar dos anos, se foram tornando evidentes, levando a que países como a França e a Grã-Bretanha aceitassem a inevitabilidade da descolonização. O que aconteceu em Portugal, onde essas contradições eram ainda mais agudas, foi que o Estado Novo impediu que a situação fosse debatida. Podia discutir-se a melhor forma de colonizar, mas não o direito a fazê-lo. Passou-se de um período em que se receava que as colónias fossem absorvidas por um rival europeu (ou pela África do Sul) para um período em que se receava que se tornassem independentes. A resposta (recusar qualquer diálogo sobre o assunto) foi a mesma que tinha sido dada aos rivais coloniais dos anos 30, como se o problema também fosse o mesmo - mas não era.
A base nacionalista do regime impunha tal resposta: eram as colónias que conferiam a Portugal a sua “grandeza”, e que estabeleciam um elo vivo com um passado “glorioso”. Mas havia outra razão. A partir dos anos 50 o Estado passou a dispor de recursos suficientes para impulsionar o desenvolvimento das economias coloniais. Foi com enorme frustração que se constatou que o resto da Europa tinha mudado de opinião quanto ao colonialismo. Tinha chegado a nossa vez de lucrar com o Ultramar, e estávamos determinados a fazê-lo.
Já depois de nomeado Marcello Caetano, manteve-se a farsa em torno de Salazar, que julgava liderar o país. O que justifica esta encenação de dois anos?
Este episódio - como a própria condição física e mental de Salazar entre 68 e 70 - é difícil de esclarecer. As contradições entre os vários testemunhos são imensas, talvez porque, durante a sua doença, Salazar teve períodos bons e maus, dias — ou horas dentro desses dias — de lucidez e dias de alheamento. Um Salazar consciente, por muito debilitado que estivesse, representaria sempre um perigo para Caetano, pois retirar-lhe-ia legitimidade e tornaria ainda mais difícil a implementação dos seus projectos de reforma.
Está a pensar regressar ao tema daqui a alguns anos. O que lhe interessa ainda abordar? Não daqui a uns anos — daqui a muitos anos! Gostaria de compor um retrato mais pessoal, menos neutro, com menos preocupações académicas. Sou já mais velho do que Salazar era quando se tornou Ministro das Finanças, em 28, mas sinto-me demasiado novo para ajuizar da vida dele, ou de certas decisões, especialmente as que têm a ver com a insistência de se manter no poder. Quem é (relativamente) novo tem mais dificuldade em entender essa insistência. Mas o que podia Salazar fazer depois de se afastar de S. Bento? Voltar para o Vimieiro?
Jornalista garante que Hitler morou e morreu na Argentina
O livro “El Exilio de Hitler” (Ediciones Absalón, 493 páginas), do jornalista argentino Abel Basti, de 54 anos, sustenta que o líder nazista e sua mulher, Eva Braun, não se mataram. “Fugiram” para Barcelona, onde passaram alguns dias, e depois foram para a Argentina, onde morreu, nos anos 60.
Dezenas de livros mais equilibrados sustentam que a polícia secreta comunista levou os restos mortais (queimados) de Hitler e Eva Braun para a União Soviética. Basti afirma, sem apresentar documentação confiável, que a informação não é verdadeira e que os nazistas, como Hitler, o chefe da Gestapo, Heinrich Müller, e Martin Bormann plantaram pistas falsas. Entrevistado pelo jornal “ABC”, da Espanha, sustenta que “existem três documentos” que comprovam que o nazista não se matou: “Do serviço secreto alemão, que dá conta de que chegou a Barcelona, procedente de um voo da Áustria; do FBI, que indica que ‘o exército dos Estados Unidos está gastando a maior parte de seus esforços para localizar Hitler na Espanha’; e um terceiro do serviço secreto inglês, que fala de um comboio de submarinos com líderes nazistas e ouro saindo rumo a Argentina, fazendo uma escala nas Ilhas Canárias”.
O livro, publicado em maio deste ano (sem edição brasileira), provoca sensação na Espanha, pelas revelações “surpreendentes” e, no geral, contestadas por historiadores profissionais. Mas as informações de Basti não deixam de ser curiosas, principalmente por ser correta mas óbvia a informação de que vários nazistas escaparam para a Argentina de Juan Domingo Perón.
Um jesuíta nonagenário é apresentado por Basti como uma de suas mais importantes fontes. Ele dispõe de muitas informações sobre a presença de Hitler na Espanha, segundo o jornalista. No livro, porém, não revela nada de sensacional.
Um documento secreto alemão aponta Hitler como passageiro de um avião que se dirigia da Áustria para a Espanha, em 26 de abril ou nas primeiras horas de 27 de abril de 1945. “Foi uma comunicação oficial secreta com cópias para o piloto Werner Baumbach, que imigrou para a Argentina e levou consigo uma cópia. Baumbach, junto a outros conhecidos pilotos nazistas, trabalhou no projeto aeronáutico de Perón.”
Para não ser reconhecido, Hitler cortou o cabelo, ficou quase careca e raspou o bigode. Teria ficado irreconhecível. “O corte do bigode deixou à mostra uma cicatriz, sobre o lábio superior, que não era conhecida por gente comum.” Sintomaticamente, no livro, Basti não enfatiza tais informações, que repassou ao “ABC”.
A versão oficial garante que Hitler e Eva Braun se mataram em 30 de abril de 1945. Basti contesta: “Nunca houve provas de sua morte. Não há perícias criminalísticas que demonstrem o suicídio. O Estado alemão deu Hitler como morto quase 11 anos depois, em 1956, por presunção de falecimento. Ou seja, legalmente, para a Alemanha, Hitler estava vivo depois de 1945. Não só vivo — não era um homem condenado pela Justiça; não havia ordem de captura, nem processo judicial. Enquanto Hitler se encontrava na Espanha, no bunker se representava uma grande farsa, cujo ator principal foi um dos duplos [sósias] de Hitler. Durante as últimas horas, o duplo foi drogado e preparado para que representasse o ato final”. Há livros que citam a possibilidade de um ou mais duplos de Hitler, como havia de Stálin, mas, no dia do suicídio, nenhum duplo estava na chancelaria. Basti não apresenta documentos e testemunhos confiáveis. Conta histórias próximas da ficção literária. O sósia que “morreu” no lugar de Hitler seria, conta Basti, um sujeito atrapalhado.
Basti assegura que “a fuga de Hitler estava prevista em um grande plano de evasão — de homens, capital e tecnologia — preparado pelos nazistas. Esse plano, em 1945, recebeu luz verde dos norte-americanos, como resultado de um pacto secreto militar. Os milhares de nazistas que puderam fugir para o Ocidente — dos quais cerca de 300 mil foram para os Estados Unidos — foram ‘reciclados’ [recrutados] para lutar contra o comunismo. Hitler se transformou num dinossauro vivo, protegido e refugiado”.
O entrevistador Antonio Astorga menciona documentos secretos britânicos nos quais se revela que Hitler fugiu para a Argentina num submarino, “com escala técnica nas Ilhas Canárias”. A versão de Basti: “Antes que o comboio de submarinos partisse da Espanha, a Armada [Marinha] norte-americana retirou todas as suas unidades navais do Atlântico Sul. Os submarinos nazistas ‘trocaram mensagens’ com a frota norte-americana. As mensagens foram interceptadas pelos ingleses”. No livro, Basti amplia as informações, mas, como de hábito, não apresenta testemunhos fidedignos, exceto especulações. Baseia-se, no geral, em documentos antigos e, quando suas teses se tornam nada convincentes, alega que os governos, principalmente o norte-americano, não desclassificaram os documentos necessários à compreensão do caso.
Embora não hajam evidências em trabalhos substanciosos, como os de Ian Kershaw (“Hitler”), de Richard J. Evans (“A Chegada do Terceiro Reich” não trata do assunto, mas sua sequência, não publicada no Brasil, sim), de Marlis Steinert (“Hitler”), de Max Hastings (“Armagedón — La Derrota de Alemanha”) e Henrik Eberle e Matthias Uhl (organizadores do esplêndido “O Dossiê Hitler — O Führer Segundo as Investigações Secretas de Stálin”), do que Basti apresenta no seu bombástico livro, citemos mais um trecho de sua suposta “pesquisa” (citada na entrevista ao “ABC”), que mais parece ficção: “Hitler, que chegou a Argentina com 56 anos, viveu como um fugitivo. Com identidade falsa e tratando de passar o mais despercebido possível. Nos primeiros anos, viveu numa estância nas proximidades de Bariloche, depois em outras partes do país, já que trocou de residência em mais de uma oportunidade. Sempre acompanhado de seguranças, às vezes três. Sua atividade política se limitou a algumas reuniões com velhos camaradas e com alguns militares argentinos. Hitler morreu na Argentina nos anos sessenta; Eva Braun, mais jovem, sobreviveu” ao marido. No livro, paradoxalmente, Basti fala muito sobre o assunto, dando voltas, mas sem esclarecer como Hitler viveu na Patagônia. Ele trabalha com “sugestões” e indícios, não com fatos e documentos. A “pesquisa” resulta de maluquice ou de invenção de Basti, ou de apresentação de documentos conspiratórios mal digeridos e interpretados? Parece loucura de jornalista sensacionalista. De qualquer modo, é uma grande história, que, a rigor, não é tão nova assim. Basti tão-somente a requenta, acrescentando, como diz, “documentos secretos”. Pensa-se, muitas vezes, que todos documentos secretos, por serem secretos, contêm “a” verdade. Nem sempre é assim, como sabem historiadores rigorosos. Muitos documentos, mesmo secretos, têm o objetivo de despistar e, algumas vezes, de reforçar mitos e esconder “a” verdade. Podem ser instrumentos de manipulação. Jornalistas têm o hábito, ao receberem documentos secretos, de publicá-los imediatamente, como se fossem um retrato preciso da realidade. Acertam, às vezes, e, outras vezes, erram. Mas, quando erram, tergiversam e publicam outra (a nova) versão. Jornalistas não gostam de ser corrigidos.
O principal equívoco de Basti talvez resida no fato de que o alicerce de sua argumentação é frágil. O jornalista pesquisou documentos da época, sobretudo despachos de agências de notícias, que necessariamente revelam as especulações do momento, sem nenhum apuro investigativo, ignorando toda a pesquisa posterior. Então, entre 1945 e 1950, pelo menos, falou-se muito na fuga de Hitler, mas, em seguida, o assunto praticamente morreu, exceto em fantasias de jornalistas sensacionalistas. O livro “O Dossiê Hitler” (Record, 627 páginas), contém as informações mais aceitáveis sobre o fim de Hitler. Foi elaborado pelos soviéticos, com base nos depoimentos de nazistas que estavam próximos de Hitler até a data de seu suicídio, como Heinz Linge e Otto Günsche. A Operação Mito, criada por Lavrenti Beria, para investigar a morte de Hitler, resultou no mais amplo relato sobre os últimos dias do ditador. Saiu em 2005 na Alemanha e em 2007 no Brasil. É a palavra (quase) final sobre o assunto e põe o livro de Basti no chinelo. Nas 42 páginas finais de “Hitler” (Dom Quixote, 849 páginas), nos capítulos “Extinção” e “Epílogo”, Kershaw não leva a sério as fantasias divulgadas por Basti e, por isso, não as menciona. Afirma, com todas as letras, que Hitler morreu em 1945. Bormann e Müller também morreram.
Brasil O fado provoca polêmica no “Jornal de Letras”, de Portugal. Rui Vieira Nery, autor do livro “Para uma História do Fado”, criticou duramente José Alberto Sardinha, autor do livro “A Origem do Fado”. Nery afirma que Sardinha não percebe a origem afro-brasileira do fado. Sardinha diz que a teoria é “furada”. (Leia mais no site www.jornalopcao.com.br)
O goiano de 65 bilhões de dólares
Nicandro Durante nasceu em Goiânia e comanda um império de 65,5 bilhões de dólares (faturamento anual). Ele é o novo chief executive officer (CEO) da British American Tobacco, dona da “brasileira” Souza Cruz. “Sou o primeiro não inglês a comandar a BAT em seus mais de 100 anos de história”, conta o executivo, que faturou 3,07 milhões de dólares em 2009, antes da promoção. Baseado em Londres, há quatro anos, o goiano de 53 anos foi capa da revista “IstoÉ/Dinheiro” na semana passada. O texto é de Carlos Sambrana.
Presente em 180 países, a BAT é a 79ª maior empresa do mundo, revela o jornal “Financial Times”. Nicandro começou como gerente financeiro da Souza Cruz, em Uberlândia. O executivo afirma que os profissionais brasileiros são respeitados pelo grupo. “Quando precisamos desenvolver ou melhorar o modelo de logística em alguns dos nossos mercados, nós importamos os profissionais da Souza Cruz.” O executivo brasileiro é criativo e tem “jogo de cintura”. A “Dinheiro” relata que “um estudo publicado recentemente pela revista inglesa ‘Human Resources’, uma das bíblias do setor, mostrou quão disputados são os profissionais daqui. A pesquisa, que contou com 22 mil trabalhadores de 18 países entrevistados, revelou que o brasileiro é o segundo mais eficiente do mundo — só perde para os indianos, mas está à frente dos americanos, canadenses e alemães. ‘Os brasileiros têm um nível de flexibilidade muito grande’, diz Olavo Chiaradia, gerente de remuneração e benefícios do Hay Group.
O ato de fumar está sob intensa pressão, mas Nicandro afirma que no ano passado as vendas do grupo cresceram 17%. Nos últimos dez anos, “os ganhos por ação foram de 12% e os dividendos de 15% ao ano”. Os acionistas estão satisfeitos. As ações da Souza Souza, entre 2005 e 2010, saltaram de R$ 22,96 para R$ 80,43 — um espantoso crescimento de 250,3%. “No ano 2010, seus papéis foram os que tiveram a maior valorização dentre todos os que fazem parte do Ibovespa. Enquanto a Souza Cruz apresentou uma valorização de 47,2%, o índice da Bovespa caiu 6,9%.”
O Instituto Nacional do Câncer (Inca) registra que, “em 1989, 30% da população brasileira era constituída por fumantes. Em 2009, a proporção passou para 15%”. Apesar disso, Nicandro sustenta que “o tabaco tem um futuro sustentável”. Primeiro, porque “gera emprego para mais de 40 mil produtores só no Brasil”. Segundo, os mercados da Ásia, Turquia, Oriente Médio, Índia, África e Rússia vão ser mais explorados, porque suas leis são “mais brandas contra o tabaco”.
A Organização Mundial de Saúde (OMS) revela que “100 milhões de pessoas morreram no século 20 devido ao tabaco e o cigarro poderá matar 1 bilhão de pessoas no século 21”.
Assepsia de Serra afasta o indivíduo
Leitores perguntam ao Jornal Opção: “Por que José Serra fracassou na disputa pela Presidência da República?” Os leitores sugerem que os programas do tucano são “ruins” e não empolgam os eleitores.
Não há uma resposta, e sim várias, e é preciso considerar que a eleição será decidida apenas no dia 3 de outubro.
Como temos o hábito de dialogar com os leitores, arrisquemos algumas opiniões, sempre preliminares, mais do que análises aprofundadas, que, na verdade, só podem ser feitas, para maior proveito, mais tarde, depois das eleições.
Os programas de Serra são “excelentes” e diferem quase nada dos de Dilma Rousseff, sobretudo no que se refere à modernização e ao desenvolvimento do país. O que varia é mais a linguagem, o modo como são explicados, do que o conteúdo. Tanto Serra quanto Dilma, apóstolos do desenvolvimentismo, querem um Estado mais indutor e regulador. Dilma, por incrível que possa parecer, é mais parecida com Serra do que com Lula. São mais técnicos do que políticos e, ao contrário de Lula, não são populistas. Em termos de linguagem e plasticidade, os programas eleitorais da petista são, quase sempre, superiores aos do tucano. Só. De resto, Serra é o genérico de Dilma e vice-versa. Se os programas são iguais, por que Serra não decola? Primeiro, porque Dilma tem Lula. Padroeiro da política brasileira, Lula é santo e, sob sua proteção, a beata Dilma vai se tornar santa. Segundo, Serra é por demais glacial, governante ideal para Alemanha, Suécia, Dinamarca e Islândia, não para o Brasil.
Ao tentar aderir ao jeitinho, aceitando ser chamado de Zé — o que indica que seus ótimos marqueteiros não sabem mais o quê fazer —, Serra não percebeu que quando a maioria escolhe um candidato, evidenciando que está “fechada” com ele, é possível fazer muito pouco. Lula, mais do que o marketing de João Santana e cia, criou uma identidade forte com os brasileiros, tornou-se, por assim dizer, seu representante (o marketing tão-somente potencializou a identidade, fortalecendo a relação direta do presidente com as pessoas). Assim, os programas de Dilma são “vistos” e os de Serra, tão bons quanto os dela, são ignorados.
Como Serra é tecnicamente competente, foi ministro da Saúde eficiente e governou (muito bem) São Paulo, o mais importante “país” brasileiro (o Brasil é composto de países-Estados), muitos, inclusive os marqueteiros, avaliaram que era o candidato ideal do tucanato a presidente da República. Não era, assim como Aécio Neves, mais popular e simpático, certamente não ganharia de “Lulilma”. Sugiro ao leitor: observe detidamente quando os marqueteiros mostram Serra com populares. Olhe bem o rosto dos populares, quase mujiques, e verifiquem que há humanidade no rosto deles. Há sorrisos, súplicas e agradecimentos genuínos. Agora, tire o olho das pessoas humildes e foque em Serra. O que se vê? Serra não consegue comunicar com as pessoas. Parece que as cenas foram feitas isoladamente e depois juntadas. Serra, como tecno-político, é asséptico demais. Deixa a impressão de que não vê as pessoas de fato, que está conversando com postes.
Por que ocorre isto com Serra, se ocorre — a avaliação, como se disse acima, é preliminar? Porque Serra, como homem de esquerda — note-se que Dilma não difere muito, mas Lula sim, porque é um homem forjado nas ruas, nos quase guetos nordestinos de São Paulo —, percebe as massas, quer o paraíso para todos, mas possivelmente não tem um olhar simpático e sensível para o indivíduo, para o ser humano comum, normal, que realmente sofre nas filas e é mal assistido pelo Estado. Na sua tentativa de tentar transformar as massas, de integrá-las quase à força ao mercado, o tucanato, tal qual a velha esquerda — que idealizava o povão, sem perceber que pode ter os mesmos vícios dos, digamos assim, burgueses (moralmente, povão e ricos são muitos parecidos; a moral deles é mais flexível. Moral rígida só a da classe média, sempre insegura e temendo o dedo do vizinho) —, parece não ter entendido que a média da sociedade é conservadora e, por isso, espera por uma transformação mais suave, ao estilo pilhérico de Lula. Este, astuto, fala ao homem do presente, com virtudes e defeitos, e Serra fala ao homem do futuro, uma incógnita. O homem do presente, o real, é brincalhão, jocoso, tal como Lula. Adora bebida, futebol, mulheres e piadas. Serra é o cidadão do futuro, consciencioso e circunspecto — enfim, alemão ou sueco.
Resultado: o PT tem dois fortes candidatos para 2014: Dilma Rousseff e o próprio Lula. Para quem não tinha nenhum nome para substituir Lula, em 2010, é um grande negócio ter Lula, o original, e Dilma, o Lula de saia. Aécio Neves que se cuide. Porque pode ser o Serra de 2014.
Heroína quase anônima
A reportagem “Professora fica refém de homem por 40 minutos” (quinta-feira, 26 de agosto), de Maria Rodrigues, do “Pop”-“Daqui”, conta a história da professora Sônia Bueno. André Marques Trindade, de 20 anos, surtado por ter sido abandonado pela mulher, invadiu uma escola em Jataí e Sônia (como a personagem de “Crime e Castigo”, de Dostoiévski?), mulher de coragem ímpar, para proteger as crianças se ofereceu como refém. Sua tranquilidade possivelmente contribuiu para que a polícia obtivesse a rendição de André, que portava um revólver calibre 38.
O texto de Maria Rodrigues é correto, mas a reportagem não tem fotografia de Sônia e a professora não foi procurada, em outra edição, para ampliar sua história.
Guerra aberta pelo poder
A imprensa internacional, mais do que a brasileira, já trata a petista Dilma Rousseff como presidente eleita. O “Estadão” de domingo, 29, mostrou as brigas entre José Dirceu e Antônio Palocci pelos principais cargos.
Palocci é candidato ao cargo de “primeiro-ministro” e quer manter Henrique Meirelles no Banco Central. Dirceu trabalha para manter Guido Mantega no Ministério da Fazenda — como contraponto à dupla Palocci-Meirelles.
A mídia está percebendo mais a guerra e a gula pantagruélica do PMDB para ocupar cargos. Mas a guerra do PT pode ser mais virulenta, apesar de mais sutil. Dirceu, como eminência parda e às vezes nem tão parda do PT, está pressionando Dilma. Mal sabe que, quando assumir, se assumir, Dilma vai assenhorar-se do poder e não abrirá espaço nem mesmo para o criador Lula. Criaturas raramente gostam de criadores.
Será que Mabel é o mentor de dossiê?
A revista “Veja” provou que Marconi Perillo não tem conta na Suíça e apresenta o deputado Sandro Mabel como mentor de um dossiê contra o senador tucano.
Não se sabe se Mabel, que nunca foi aloprado, é mesmo o mentor do dossiê, pois tudo indica que só passou o dossiê adiante. Nos bastidores, comenta-se que o articulador é o ex-petista Delúbio Soares, um lobista de São Paulo e um jornalista goiano (expert em extorsão e visto como bate-pau do jornalismo local. A mando de um político goiano, teria investigado várias pessoas ligadas a Marconi). Delúbio estaria efetivamente envolvido? Não se sabe. Porque ele é o “culpado” de quase tudo. É o “mordomo” preferido do romance policial “escrito” pelo PT.
Morte de Carmélio Alves
Carmélio Alves de Souza era, antes de tudo, um homem de bem, sempre gentil, profundamente humano e solidário. Uma figura rara. Foi comentarista esportivo e trabalhou na Escola Técnica Federal de Goiás. Durante anos, foi aos estádios para ver sobretudo o time do Vila Nova jogar. Aos poucos, como o Vila mais perdia do que jogava (ganhava), foi desistindo. Mas não deixou de amar o futebol, o qual entendia como poucos. Na semana passada, aos 80 anos, Carmélio faleceu.
Era cunhado do professor Niso Prego e pai de Patrícia Prego, mestre em economia pela Universidade Federal de Goiás e professora da Cambury, faculdade dirigida pelo economista Giuseppe Vecci.
Pio Vargas não era “filho” de Leminski
Rogério Borges, crítico do “Pop”, escreveu um texto inteligente e decente sobre o lançamento da obra completa (e pequena) do poeta Pio Vargas. Borges é um dos mais qualificados resenhistas da imprensa local.
Agora, com a publicação do livro, organizado pelo competente Carlos Willian, que teve um trabalho gigantesco para colher o material, os críticos literários, notadamente os acadêmicos, poderão examinar a poesia do incensado e já lendário Pio, poeta nas horas “vargas”, como disse numa poesia.
O historiador e escritor Ademir Luiz escreveu uma porta de entrada à poesia de Pio, ao apresentá-la na obra (quase) completa. Por sinal, uma excelente introdução (ensaio), que deveria ser ampliada para, pelo menos, um opúsculo. Porque há muitas sacadas, tremendamente perspicazes, a serem desenvolvidas. Ademir é um grande leitor da poesia de Pio e sugere pistas a serem exploradas pela turma da área de Letras das universidades.
Um dos equívocos de alguns amigos de Pio é aceitar sua “nomeação” como sucessor do poeta paranaense Paulo Leminski (fraquinho, fraquinho, um quase-concretista com fome africana). Na verdade, foi o próprio Leminski, numa de suas “leminskipiadas”, quem nomeou Pio como seu sucessor (deve ter feito o mesmo com outros poetas provinciais). Ora, Leminski não criou nenhuma escola poética, e não era começo nem fim de nada, e assim não tinha como nomear sucessor. Depois, a poesia de Pio tem a ver mas não totalmente com a poesia do vate sulista (os dois eram mais parecidos na arte de usar drogas, sempre as mais pesadas). Viveu menos do que Leminski, morreu garoto, mas sua poética é menos, muito menos, superficial do que a do poeta “multimídia” (palavra em desuso?) da terra de Dalton Trevisan.
Por que não aproximar Pio de Oswald de Andrade e, quem sabe, Appollinaire? Ou outros poetas igualmente votados e dotados, como François Villon e, mesmo, o divertido Lewis Carroll (poeta às vezes refinado e brincalhão). Leminski não “inaugurou” nada — era tão-somente epígono dos concretistas e, antes, dos japoneses. O que Leminski fez mesmo foi criar e cristalizar sua própria lenda como poeta “inventivo” e tradutor “transcriativo”.
Postagem: 05/09/10 |