
“Segurando a imagem pude ouvir as últimas notas musicais daquela rápida execução, orquestra ou concerto”
Dois fatos marcaram meu dia de hoje (06/07/10).
Pela primeira vez presidi a Missa em Inglês, na Horione’s House, para os idosos aposentados, assessorado pelo diácono Iraquiano Jamir Hanei e concelebrada pelo polaco Pe. Henrico, ao meio-dia. Antes, porém, às 11h45, enquanto me preparava em meu quarto algo me surpreendeu. Estou neste lugar desde o dia 15 do mês passado (21 dias). A imagem de Nossa Senhora das Graças de plástico florescente no parapeito do grande vitraux, não me chamava mais atenção que os outros tantos símbolos de fé que encontrei neste quarto, a não ser pelo fato de ela ser minha padroeira de ordenação diaconal (Rialma-GO). Além dos sinais de quedas (mão direita reconstruída), a imagem não chama atenção, parece antiga e já não floresce como era de se esperar deste tipo de material. Não procurei outros detalhes nesta imagem (sempre tenho em conta que imagens são o que são: “imagens” ou representações daquilo que é real).
Várias vezes não a vejo porque arrasto a cortina de proteção contra o sol, ela fica ali, por detrás, uma discreta e escondida presença. Às 11h45 de hoje, enquanto repassava os textos da Missa, agradecido por poder celebrar, por poder estar de férias e me dispor… Por poder celebrar para pessoas que escreveram tantos “rastros de história” em suas vidas, em lugares diferentes, e agora se encontram juntas neste Centro, frágeis, dependentes de enfermeiras e de outros profissionais. Hoje, às 11h45, sem que eu ligasse qualquer um dos quatro equipamentos de som que disponham no quarto (com o celular são cinco, para ser mais exato)… Na verdade eu precisava do máximo de concentração nestes minutos finais que antecederiam meu gesto de coragem (presidir a Missa em um idioma que não domino)… Ouvi um suave tilintar, uma melodia agradável, como uma harpa angélica sendo tangida (quem já ouviu a harpa de algum anjo sabe que é muito agradável. Você já ouviu a harpa de algum anjo? Pois é! Assim mesmo!).
Fiquei confuso nos primeiros segundos, girando o pescoço para os lados tentando encontrar a fonte daquela execução quase divina. Claro, ao passar os olhos na direção do vitraux, não fixei porque dali não teria lógica vir sons (estou na quinta planta, no único e mais alto quarto do edifício) porque esta área é silenciosa, própria para as leituras e descanso que eu buscava após um ano do exigente curso de Direito Canônico (estou um mês de férias, em Londres). Depois de conferir que todos os aparelhos estavam desligados e, com mais atenção, pude fixar na direção do vitraux e me levantei pra abrir e ver lá embaixo quem estaria tocando. Ao abrir as cortinas, então, fiquei realmente surpreso ao descobrir que a música vinha… “de Nossa Senhora”. Segurando a imagem pude ouvir as últimas notas musicais daquela rápida execução, orquestra ou concerto. A música vinha daquela imagem machucada, esquecida, sem luz e sem orgulho… Só ao levantar esta imagenzinha pude notar que debaixo de seus pés há uma caixinha de música, que funciona a corda. Quem deu corda naquele reloginho da caixa escondida no troninho da escultura? Nestes 21 dias… NINGUÉM!
Como lavo e passo minhas roupas, também sou eu quem cuido deste quarto enquanto estou aqui. Ninguém entrou neste quarto senão eu e… Talvez os anjos, que deviam estar ali, ao lado de Nossa Senhora, em festa, na alegria da Missa, desta primeira que eu haveria de celebrar, neste idioma. Pelo menos foi o que entendi! Por que esta caixinha musical não tocou NENHUMA vez, nestes dias para que eu pudesse descobrir antes e desfrutar, também, dando corda a cada dia? Não sei!
O que sei é que este incidente (casualidade?) foi providencial em meu contexto; foi outro dos pequenos-grandes sinais que o Senhor tem me deixado perceber, desta vez através de sua mãe, e minha. Já não preciso ouvir dos outros: sou um de seus filhos muito queridos! Confesso, celebrei com menos tensão, menos insegurança que imaginava e ao final, ainda recebi incentivos.
Para mim, será difícil esquecer este dia, esta celebração, esta melodia. Doravante olharei mais vezes para aquela imagenzinha, sem cores, sem orgulho. Terei o cuidado e prazer de dar corda naquele relógio… Quero fazer minha parte, nesta orquestra de sons… do alto. A janela ficará aberta, quem sabe os passantes, lá embaixo, ouvirão também!
Agora, é mais de meia-noite. Eu já ia dormir, mas não resisti ao impulso de, antes, registrar este fato e compartilhar com alguns. Afinal, me parece raro ouvir música assim. Não é verdade?
Que o Senhor Jesus, nosso Deus, lhe abençoe.
Observe, leitor, três fotos desta pequena imagem.

“Por que esta caixinha musical não tocou NENHUMA vez, nestes dias para que eu pudesse descobrir antes e desfrutar, também, dando corda a cada dia? Não sei!”

“Doravante olharei mais vezes para aquela imagenzinha, sem cores, sem orgulho. Terei o cuidado e prazer de dar corda naquele relógio…”
Postagem na coluna on-line: julho/2010. Esta publicação também será veiculada na edição 102 do JC |